Não é de hoje minha paixão por filmes de “ficção científica”. Quando criança vivia torcendo para que algum desses filmes fantásticos fosse apresentado na Sessão da Tarde. Fora os filmes das tarde haviam as sessões noturnas, principalmente aquelas de sábado a noite, será que alguém lembra do Primeira Exibição? Tinha esse nome porque era a primeira sessão de filmes das noites de sábado da Globo, depois vinha Sessão de Gala e terminava com Coruja Colorida. Hoje Primeira Exibição leva o nome de Supercine, Sessão de Gala não existe mais e no lugar de Coruja Colorida tem o Corujão. Foram nessas saudosas sessões televisivas que assisti Viagem Fantástica, A Mosca da Cabeça Branca, O Homem Invisível, Viagem ao Centro da Terra, vários desses clássicos, muitos dos quais se tornaram cult, embalaram tanto minhas tardes como minhas noites.
Hoje, com um gosto mais seletivo e ainda apreciador do gênero em questão, fico meio decepcionado com certas produções que são apenas “ficção” e que de científica não tem quase nada. É lógico que não se deve esperar desses filmes um verdadeiro desdobrar de teorias realmente endossadas pela ciência, mas uma boa história, um bom argumento de ficção deve estar fundamentado dentro de uma linha lógica para que possamos experimentar um estado de verossimilhança com a realidade, caso contrário a história perde a coerência e se torna uma série de devaneios sem sentido.
A questão da verossimilhança se estende também para os conceitos científicos que são, desavergonhadamente, distorcidos em muitos filmes. Bom, mas como existe “liberdade poética” o roteirista tem todo o direito de casar ciência com mirabolâncias afins, o problema será apenas de quem assiste, ou melhor, com que olhos se vê o filme, quais os critérios de avaliação. Se alguém pretender usar o filme de ficção para “aprender” ciência estará batendo na porta errada, mas se alguém procura um filme baseado em ciência de verdade para observar possíveis desdobramentos de teorias ou de pesquisas cientificas poderá de fato encontrar esse tipo de conteúdo em alguns filmes, como em versões cinematográficas de autores como Isaac Asimov, Arthur Clark ou Carl Sagan.
Um bom exemplo para se ter uma idéia é o filme “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, o filme é versão de Stanley Kubrick da obra homônima de Arthur Clark. A trama explora a questão da evolução e a relação do homem com a tecnologia, uma das cenas clássicas é a que o homem pré-histórico lança uma clava feita de osso para o alto e em seguida a cena é substituída por uma nave espacial, a idéia do avanço tecnológico está implícita na cena. Outro fator, que parece ser a abordagem principal do história, é o conflito entre o astronauta e o super-computador HAL 9000, uma metáfora para a questão filosófica do embate entre criador e criatura, aliás essa mesma temática se evidencia em Blade Runner – O Caçador de Andróides.
Um certo ator, durante participação em um Reality Show, intencionando demonstrar seu profundo conhecimento em Teoria da Relatividade Geral, fez o seguinte comentário para sua companheira de programa: “Sabe aquele negócio de o Superman dar a volta no mundo e o tempo voltar? Pois é, aquilo é Einstein!”, este é sem dúvida um exemplo clássico da forma errada de se encarar um filme de aventura e ficção. O Superman de Richard Donner, cujo slogan para divulgação na época era “você vai acreditar que o homem pode voar”, é tudo menos fiel à ciência. O personagem em si, nascido nos quadrinhos, viola inexplicavelmente muitas das leis físicas, e quanto a voltar no tempo, definitivamente o ator demonstrou não saber nada sobre Einstein, pois a Teoria da Relatividade sugere apenas que, devido a uma dilatação do tempo, possível se o viajante atingir velocidade aproximada a da luz, se consiga dar um salto para o futuro, mas não sendo possível o seu regresso, ou seja, isso não se verifica no filme de Donner, logo aquilo definitivamente “não é Einstein”.
E já que tocamos no assunto de viagem no tempo, duas franquias que exploraram o tema de forma interessante, bem competente mas não menos fantasiosa, foram “De Volta para o Futuro” e “Exterminador do Futuro”. O físico Stephen Hawking argumenta que viagens no tempo jamais aconteceram porque até agora não se viu nenhum turista futurístico nos visitando, esse é um argumento bem interessante, mas por sua vez o escritor e jornalista J. J. Benítez em Operação Cavalo de Tróia oferece uma perspectiva de viajantes que não são de forma alguma notados, para tanto esses mesmos viajantes dispõem de uma tecnologia que extravasa os conceitos científicos, a explicação para essa tecnologia fica nas entrelinhas do livro como sendo de origem extraterrestre (ufólogos, caso do Benítez, sempre apelam para os extraterrestres quando falta uma explicação plausível para algum fenômeno, seja na ficção ou não). Em De Volta para o Futuro e Exterminador do Futuro os viajantes também não são notados e chocam-se com a questão do “paradoxo do Avô”. Tanto numa franquia quanto na outra existe a possibilidade do futuro ser alterado ao se fazer a viagem para o passado.
O “paradoxo do avô” funciona assim (ou funcionaria se fosse possível a viagem), um certo homem viaja no tempo para os dias em que seu avô nem era pai, e resolve por algum motivo obscuro matar o seu avô. Mas se ele conseguir matar o avô seu pai não vai nascer, sendo assim esse viajante do tempo também não vai nascer, e se não vai existir não poderá fazer a viagem no tempo e matar o seu avô. Em vista disso, o físico russo Igor Novikov propôs o “princípio da auto-consistência”, no qual ele afirma que não é possível ao viajante desencadear eventos no passado que alterem o futuro, logo tudo o que esse viajante faça na verdade vai acabar resultando naquilo que se verificou na linha histórica do tempo.
É isso leitor, meu conselho, caso você também seja um entusiasta da Ficção Científica no cinema ou literatura, é que aprecie o gênero com muita moderação. Se quiser aprender ciência leia livros de ciência ou assista a documentários de ciência. Fazendo isso seu olhar crítico diante do trabalhos desses escritores e cineastas se verificará mais aguçado, e confesso que a apreciação pela ficção científica até aumenta, já que ela deixa de ser fonte de informação e torna-se objeto de discussão, e é discutindo, conversando, comparando idéias e teorias que o saber evolui.