A terra dos faraós, assim como suas magníficas pirâmides, sobreviveu ao tempo. Há aproximadamente 5000 anos Narmer, o Rei Escorpião, estabelecia o regime faraônico, sistema que vigoraria até que o opulento Império Romano, sob o governo de Otávio, pusesse um fim as linhas dinásticas.
Nesse ínterim o Egito foi palco de grandes histórias e de grandes personagens. Homens e mulheres que brilharam no radiante firmamento dessa que foi uma das civilizações mais antigas do mundo. Porém trataremos aqui de uma personagem em particular, uma mulher que governou o Egito com pulso firme, e que conseguiu o feito extraordinário de se tornar a primeira mulher faraó da história (embora, para alguns egiptólogos, Nitocris teria sido a primeira).
O nome dela foi Hatshepsut, filha do grande Tutmés I e da rainha Ahmose. Antes de falarmos sobre ela é importante saber qual era a situação da mulher no Egito antigo. Diferente de outras nações da época, a mulher egípcia, fosse das classes mais altas ou não, gozava de uma situação privilegiada. Isso não quer dizer que a igualdade entre os sexos era plena, mas a mulher podia participar ativamente na sociedade como o homem, podia exercer cargos públicos e tinha os mesmos direitos.
Com a realeza não era diferente, a Grande Rainha tinha poder e influência na corte, ainda assim o poder absoluto pousava sobre as mãos do Faraó, somente os homens poderiam exercer esse cargo como Narmer havia firmado.
A história de Hatshepsut começa assim, Tutmés I não tinha filho homem com a rainha Ahmose, mas tinha filhos com Mutnefert, sua segunda esposa. Quando morreu Tutmés II, seu filho com a esposa secundária assumiu o trono, e para legitimar sua posse teve que se casar com a meia-irmã Hatshepsut. Seguindo o costume real Tutmés II também teve uma esposa secundária, chamava-se Ísis. Com Hatshepsut teve duas filhas, Neferura e Neferubit, e com Ísis teve Tutmés III.
O reinado de Tutmés II foi breve e alguns egiptólogos acreditam que tenha durado apenas três anos, sendo possível que a própria Hatshepsut tenha administrado os assuntos reais pois o rei não gozava de boa saúde. Quando morreu o cargo faraônico foi transferido para seu filho Tutmés III, mas como esse ainda era criança, tinha apenas 6 anos, não pode assumir plenamente, ficando assim Hatshepsut como corregente.
No segundo (alguns acreditam que no terceiro) ano de Tutmés III, Hatshepsut reuniu a corte e se alto conclamou Faraó. Antes dela havia registros de rainhas que administraram sozinhas o reino, mas nenhuma sob o título faraônico. Ainda durante o reinado de Tutmés II, Hatshepsut começou a angariar a simpatia de súditos importantes, isso facilitou o golpe, principalmente por ter conseguido apóio do sumo sacerdote Habuseneb.
Para tornar legítimo o seu governo Hatshepsut lançou mão da religião, declarou-se filha direta do deus Amon-Rá. Hatshepsut e Habuseneb confabularam e anunciaram que Amon teria visitado e copulado com Ahmose, em seguida vaticinado que daquela relação nasceria uma Grande Rainha que traria paz e prosperidado para o Egito. A história da concepção divina de Hatshepsut pode ser lida nas paredes de seu templo em Deir-El-Bahari.
A Rainha Faraó usou a dupla coroa que fazia dela senhora das Duas Terras (Alto e Baixo Egito). Assumiu os cinco títulos reais próprios dos Faraós e passou a ser chamada Maatka-Re que significa “O Espírito de Rá é Justo”.
A guerra contra os Hiscos, perpetrada pelos antepassados de Hatchepsut, conquistou a autonomia para o Egito, agora a nação precisava se reerguer e enriquecer suas reservas. Por esse motivo o período de regencia de Hatshepsut foi pacífico, ao que tudo indica apenas duas campanhas foram realizadas em seu governo e mesmo assim de caráter defensivo. Uma dessas campanhas deu-se contra a Núbia, uma nação que oferecia certo risco contra o Egito, pois vez ou outra atentava contra as divisas do reino.
Para o trabalho de soerguer a nação a Rainha Faraó contou com a ajuda de Senemut. Esse personagem aparece na história da rainha primeiro como tutor da mesma e depois como tutor de suas filhas. A ligação de Hatshepsut com Senemut levou alguns estudiosos a defender a idéia de que foram amantes, mas não existem provas conclusivas sobre isso. O fato é que ele tornou-se um grande arquiteto real e sob o comando da Rainha Faraó reformou a cidade de Tebas. Edificou a famosa Capela Vermelha e das pedreiras de Assuão, cidade que ficava a altura da primeira catarata do Nilo, construiu os maiores obeliscos de então, que depois foram transportados para o centro religioso de Karnak.
Outra maravilha arquitetônica encomendada pela rainha foi seu Templo em Deir El-Bahari. O templo era chamado de Djeser Djeseru (Explendor dos Explendores), foi construído ao sopé de um monte rochoso, erigido sobre três plataformas com andares sobrepostos, sustentado por colunatas e ornamentados com estátuas da rainha. Uma enorme rampa levava ao segundo andar e uma outra conduzia ao terceiro, diante da primeira rampa uma série de esfinges abriam caminho para a entrada do templo. O Djeser Djeseru é considerado uma das obras mais impressionantes da arquitetura egípcia.

Templo de Hatshepsut
Nas paredes do segundo andar do Templo pode-se ler sobre a grande viagem de Hatshepsut em missão para a terra de Punt. A viagem não tinha fins militares, nem muito menos a intenção de ampliar o território, mas era de cunho comercial e diplomático. A expedição foi comandada por Nehesi, portador do selo real. Objetivava trazer mirra e incenso para o Egito, produtos de grande valor cultural, o incenso para os rituais sagrados e a mirra para os trabalhos de embalsamamento.
Essa viagem marca o apogeu do reinado de Hatshepsut. A campanha serviu para estabelecer e propagar o nome da Rainha Faraó. Ao voltar para o Egito a expedição importou mais do que produtos finos, a viagem serviu como intercambio cultural entre os dois povos, Hatshepsut pode conhecer os costumes e sistema político desse povo, assim também como a fauna e flora do país.
Com aproximadamente 22 anos de governo, Hatshepsut conseguiu transformar o Egito em uma nação mais rica graças a ampliação das rotas comerciais, robustecendo o tesouro da realeza e melhorando as condições de vida do povo, que aliás a admiravam sobremaneira.
Hatshepsut pertenceu a afamada XVIII dinastia, e viveu por volta de 1479 a 1458 AEC. Não restaram vestígios da época de sua morte, a rainha desapareceu repentinamente dos anais egípcios. Acredita-se que Tutmés III tenha destruído muitos de seus templos e tenha apagado o seu nome como Rainha Faraó para consolidar o seu reinado. Tutmés III foi um grande conquistador e estendeu o domínio egípcio até as margens do Eufrates, mas jamais teria conseguido isso se Hatshepsut não tivesse estabelecido as bases políticas e financeiras que caracterizaram seu governo.
Graças a arqueologia e ao trabalho de Zahi Hawass, diretor do Conselho Superior da Antiguidades Egípcias, descobriu-se em 2007 uma múmia que pode ser a da Rainha Faraó. O fato da múmia da rainha não se encontrar no respectivo sarcófago dificultava sua identificação. Ao que tudo indica seu corpo foi retirado do local de sepultamento para evitar que fosse profanado. Para solucionar o mistério um grupo de múmias da XVIII dinastia foram pesquisadas, e Zahi Hawass ficou interessado por uma em especial, que era de uma mulher obesa com braço esquerdo dobrado sobre o peito, conforme os antigos costumavam fazer com as múmias reais.

Possível Múmia de Hatshepsut
Para chegar a conclusão de que seria a múmia de Hatshepsut recorreram a um pedaço de dente molar depositado na urna que pertencia a rainha. Examinaram o dente e descobriram que o mesmo faltava-lhe na arcada da múmia. Exames de DNA também revelaram que múmia tinha parentesco com Tutmés I e Ahmés Nefertari, avô de Hatshepsut. É muito provável portanto que a múmia seja realmente da Rainha Faraó.
Exames também revelaram que a múmia da provável Hatshepsut morreu de câncer nos ossos e no fígado, o que invalidaria a hipótese de que tivesse sido vítima de um complô urdido pelo seu enteado Tutmés III.
O fato da múmia ser obesa também coincide com certas representações pictóricas da Rainha onde aparece gorda, alguns viam nisso apenas um símbolo da prosperidade advinda de seu governo, mas ao que tudo indica Hatshepsut também andou quebrando, voluntária ou involuntariamente, tabus de ordem estética, já que o padrão de beleza egípcio exigia que o corpo fosse esbelto.
A arqueologia ainda busca mais detalhes da vida dessa figura extraordinária, no futuro talvez tenhamos mais surpresas, por enquanto o que podemos saber é isso, que o governo de Hatshepsut foi excepcional tanto por seu formato quanto por seus resultados, firmado pela diplomacia mais do que pelo apelo bélico. A Rainha Faraó provou que uma mulher poderia administrar tão bem a nação quanto qualquer outro Faraó, tornou-se um paradigma para qualquer mulher que, ainda nos dias de hoje, luta para sobressair-se numa sociedade em que ainda impera os costumes patriarcais.
Abaixo seguem-se palavras da própria rainha que revelam sua reverência ao culto e sabedoria egípcia:
“Eu dei o máximo valor à Regra (Maât)
Que o princípio divino ama,
Eu sei que ele vive dela.
Ela é igualmente meu pão,
Eu bebo seu orvalho,
Eu formo com ela um só ser.”
Muito bom! Voltou ao blog, e voltou em grande estilo. Tinha deixado a leitura para um momento em que tivesse tempo, para poder apreciar melhor. E sabia que não me decepcionaria.
Fascinante a história de Hatshepsut, especialmente sobre a construção de alguns templos, que eu não sabia que eram dela; e também pela forma como ela governou o Egito.
Terrível mesmo era um faraó apagar os registros dos antecessores para que a contagem das dinastias começasse a partir dele. Tanta coisa deve ter se perdido, não só em relação à Hatshepsut, mas em toda a história do Egito.
Parabéns novamente pelo texto, e continue a escrever.
Oi Emerson, achei fascinante a história de Hatshepsut. Deu para ver que você pesquisou mesmo a fundo. O que eu sabia até agora sobre a rainha era muito superficial, e eu ainda tinha em mente que ela havia sido assassinada.
Eu fiquei curiosa para saber se Punt era Ponto, uma região que é sempre mencionada nos livros quando se fala do reinado de Cleópatra. E realmente se trata do mesmo lugar, mas erroneamente chamado de Ponto, porque Ponto refere-se a outra região, que não foi visitada pelos egípcios. Na verdade, Punt se trata de uma região da África Oriental, ainda não localizada, que hoje pode ser um destes países: Comores, Djibouti, Eritreia, Etiópia, Quénia, Seychelles, Somália e Tanzânia.
É isso aí, Emerson, seu texto está excelente. Parabéns.
Uau!
Você falou muito bem acerca da Grand Hatshepsut ^^
Eu sou meio que uma pesquisadora-mirim da história egípcia, pela qual sou fascinada.
Caso seja de seu interesse, o livro “O Assassinato de Tutancâmon”, do egiptólogo Bob Brier, pode te exclarecer alguma ocasional duvida que você tenha sobre o caso, ou saciar sua curiosidade acerca da história egípcia.
Caso sejas mais “sabido” quanto ao quesito EGITO, peço por favor, fontes de estudos sobre o mesmo.
SOu uma ratinha rsrsrs, pego tudo que falar não só sobre egito, mas civilizações antigas. Como creio que ja estudei muito sobre antigas civilizações mesopotamicas, agora volto meu interesse às civilizações européias: anglos, saxões, escandinavos… e tantas outras que ainda não tive o prazer de tomar conhecimento. Notei por outros posts que tem quase o mesmo nível de interesse que eu, então gostaria muito que pudéssemos nos comunicar por emails, a fim de reciprocamente trocar algumas idéias e fontes de conhecimento (que creio eu você deve ter muuuuitas e interessantíssimas ^^)
obrigada desde já