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A grande novidade que vem animando físicos do mundo inteiro é que este ano entrará em funcionamento o mais poderoso acelerador de partículas do mundo. Os aceleradores de partículas não são novidade, mas muitos só descobriram agora que tais máquinas existem. Infelizmente a mídia não se preocupa muito em divulgar ciência de verdade, nas últimas semanas as manchetes dos jornais estavam mais preocupadas em focar as “personalidades” ou “heróis” de um certo e famigerado Reality Show.

Fora isso, a primeira notícia que leio no ano sobre o acelerador vem permeada de “prenúncios apocalípticos”, algo como “o fim do mundo está chegando”, “cientistas vão criar buraco negro que pode destruir nosso planeta”. É fantástico como certos jornais gostam de publicar matérias deste tipo, que servem apenas para discriminar a ciência e fazer proliferar as paranóias supersticiosas, informar que é bom, nem pensar.

A sigla usada para identificar a máquina é LHC que significa Large Hadron Collider (Grande Colisor de Hádrons). Os hadróns do nome correspondem às partículas que possuem força nuclear forte, essa é a força que mantém prótons e nêutrons ligados, já a força nuclear fraca permite por exemplo que elétrons não permaneçam ligados a estrutura atômica. O mecanismo de funcionamento dos aceleradores é semelhante ao de sinais de rádio que chegam até nossas antenas. Essas ondas carregam elétrons que por sua vez geram um campo magnético, também chamado de campo eletromagnético. Quando atingem as antenas elas fazem movimentar os elétrons dos átomos das mesmas, que chegam até os aparelhos onde são decodificados e transformados em som e imagem. O mesmo acontece nos aceleradores, a diferença está no poder das ondas de rádio que são emitidas.

O LHC foi construído onde já existia um acelerador desde 1989, o LEP, que é um acelerador de léptons e pósitrons. Imagine um túnel a aproximadamente 100 metros abaixo do solo e que descreve uma circunferência de 27 quilômetros, cabe uma cidade dentro desse território. Esse é o espaço compreendido pelo LEP e que agora abarca também o LHC. Só que diferente do LEP, o LHC vai tentar reproduzir os presumíveis fenômenos desencadeados após o Big Bang. Isso será possível porque o acelerador conseguirá fazer com que partículas de prótons e antiprótons choquem-se a uma velocidade de aproximadamente 300.000 km por segundo. Com a colisão das partículas acontece a fragmentação das mesmas e a liberação de uma grande quantidade de energia. O que os cientistas pretendem ver são justamente as partículas que resultam dessa colisão, partículas que não existem mais em nosso universo mas que existiram nos instantes iniciais após o Big Bang.

Essas partículas que os cientistas procuram comprovar a existência são chamadas de partículas fundamentais, dentre elas existe o chamado bóson de Higgs, que também recebe o nome de “partícula de Deus”. Sua existência pode levar a física para mais perto de uma teoria unificada. Será possível também comprovar se no início existia apenas um tipo de força em lugar das quatro atuais que são a força gravitacional, força eletromagnética, a nuclear forte e nuclear fraca.

Alguém pode por fim perguntar para que serve tudo isso. E é uma pergunta muito justa. Na prática o LHC não terá serventia nenhuma, a máquina servirá a ciência pela ciência, é um equipamento de pesquisa, mas um equipamento bem caro, nada comparado ao que se gasta com tubos de ensaio. Mas se olharmos para o que se perde em dinheiro investido com armamento bélico por potências como os EUA, o valor do LHC é irrisório. E o alardear de que existem necessidades mais urgentes, como a fome nos vários cantos do mundo ou crises financeiras deste ou daquele país, não passa de abordagem pra lá de ingênua. O dinheiro investido em pesquisa científica não desmorona a economia de grandes nações que ainda poderão ajudar os necessitados, se as nações não ajudam é simplesmente porque não se interessam por isso. Se é preciso protestar (e acho que é), o caminho não é atacando a ciência, mas assumindo uma postura política mais atuante e lúcida, e saber questionar essas ideologias que fingem não ver os problemas sociais.

Não se esqueçam de que na história da ciência, justamente de onde não se esperava grande coisa, foi que surgiram as maravilhas que hoje ninguém mais consegue viver sem. Descobertas que vão da penicilina ao micro-ondas, do telégrafo ao computador pessoal. As pesquisas no LHC por exemplo, podem (quem sabe) revelar uma forma fácil de produzir anti-matéria em grandes quantidades e de forma contínua e barata, se isso acontecer o problema de energia na Terra estará resolvido.

Aí outra pessoa pode levantar a questão de que seja possível também descobrir uma nova “arma nuclear”, sim, também é possível, mas esse é um risco necessário, o bom e o mau uso da ciência estão no campo da ética. A mesma pedra lascada usada para a caça como meio de sobrevivência foi também usada para suplantar tribos rivais, isso é da natureza do homem, e para supera-la somente se dedicando a filosofia da moral, eis aí uma necessidade mais do que urgente, e que não custa caro, basta querer fazer.

Quanto ao fim do mundo, sinceramente acho que é uma questão com a qual ninguém tem que se preocupar. Se o LHC for de grande valia para a humanidade, ótimo, todos saem ganhando. Mas se o LHC for realmente a máquina do fim do mundo, então fica aqui o sábio conselho do poeta romano Horácio “Carpe diem quam minimum credula postero”, que significa “aproveite o dia, e confie o mínimo no amanhã”.

Ayaan – Infiel

Historicamente o papel da mulher tem se restringido apenas ao da procriação e afazeres domésticos. Ainda hoje a realidade de muitas mulheres se limita a isso, não lhe sendo concedido espaço para mais nada. Alguns grupos radicais vão mais além, e tiram da mulher até o direito ao prazer. O ato bárbaro da infibulação do clitóris ainda é praticado, nele são amputados o clitóris e os lábios menores e depois satura-se os lábios externos, ficando no local apenas uma grande cicatriz e um pequeno orifício para o fluxo urinário e menstrual.

Isso que parece um absurdo para nós é a realidade de muitas mulheres, oprimidas por sistemas religiosos e políticos fundamentalistas. E foi em parte a realidade de Ayaan Hirsi Ali.

Ayaan, natural da Somália, vive atualmente sob a proteção se seguranças nos Estados Unidos. O motivo de viver protegida deve-se ao fato de ter em 2004 trabalhado na produção de um filme em parceria com Theo Van Gogh, no filme Theo e Ayaan fazem duras críticas aos abusos infligidos as mulheres islâmicas. A própria Ayaan foi uma dessas tristes vítimas. Sofreu a já citada infibulação, fugiu de um casamento arranjado e foi viver na Holanda, onde mais tarde engajou-se na carreira política. Desde então tem sido ferrenha defensora dos direitos das mulheres.

A exibição do filme provocou a ira de grupos extremistas e Van Gogh acabou sendo assassinado, sobre o seu corpo foi encontrado um bilhete de ameaça a Ayaan, desde então vive em reclusão.

Emílio Calil, em seu blog Sobre o Cotidiano, relata suas impressões sobre o livro Infiel de autoria de Ayaan. O livro é uma autobiografia reveladora, uma caixa de pandora que faz eclodir a dura realidade das mulheres que vivem sob a linha dura do fundamentalismo religioso. Visitem o blog do Emílio e dêem uma conferida.

A mitologia grega, dentre todas as outras, é a que mais me fascina, ficando a mitologia nórdica em segundo lugar. Conhecer as várias mitologias é muito importante para aqueles que procuram descobrir como pensavam os antigos, qual sua visão de mundo e como isso afetava suas vidas.

A mitologia é também uma forma de saber. O homem antigo procurava explicar os fenômenos naturais por meio de alegorias. A criação das alegorias constituiu um avanço na abstração conceitual do mundo natural, era sem dúvida uma primeira e sofisticada forma de idealizar as coisas.

Se não me falha a memória, acho que o primeiro contato que tive com a mitologia clássica, foi quando assisti pela primeira vez o filme “Fúria de Titãs”, não lembro mais o ano, mais sei que era criança na época. E como toda criança adora contos cheios de fantasia, não foi diferente comigo.

Numa enciclopédia de ciência, comprada por meu pai quase um ano antes de eu nascer, descobri que muitos dos mitos gregos serviram à Astronomia emprestando o nome de deuses e heróis para estrelas, planetas e constelações. Aquilo tudo era maravilhoso, todas aquelas descobertas me faziam querer aprender mais sobre a cultura dos povos gregos. Mas tarde pude verificar que não existia só a mitologia grega. Lendo uma revista em quadrinhos especial do Thor (da Marvel Comics), fiquei sabendo que o mesmo personagem havia sido inspirado na mitologia dos povos nórdicos. Então imaginei logo que outros povos tivessem suas mitologias tembém, e estava certo, logo me deparei com mitologias egípcia, mesopotâmia, cananéia, japonesa, chinesa, indú, e inclusive a mitologia indígena do Brasil que, mesclada a culturas africanas e européias, nos deram personagens como a sereia Iara, o Saci, a Mula-sem-cabeça, lobisomens e tantos outros.

Em 1988, visitando a Biblioteca mais próxima do bairro onde morava (e ainda moro), peguei um dicionário de mitologia e lá encontrei a história de Édipo e Jocasta, na época a tv exibia uma novela cuja trama central baseava-se na história desses dois personagens. Li tudo, era um texto pequeno, mas que me deixou bem informado sobre o drama de Édipo. Adorei. De lá pra cá Édipo se tornou meu preferido dentre tantos heróis gregos, tomando o lugar que era de Perseu, que conheci assistindo o já referido “Fúria de Titãs”.

Quero compartilhar agora com os leitores o mito de Édipo. Separei um texto de “O Livro de Ouro da Mitologia”, escrito por Thomas Bulfinch. O livro foi um presente de minha noiva, que agora é esposa, é um livro fantástico e recomendo para aqueles que gostam de mitologia, entendem sua importância e procuram conhecer mais.

“Laio, rei de Tebas, foi advertido por um oráculo de que haveria perigo para sua vida e seu trono se crescesse seu filho recém-nascido. Ele, então, entregou a criança a um pastor, com ordem de que fosse morta. O pastor, porém, levado pela piedade, e, ao mesmo tempo, não se atrevendo a desobedecer inteiramente à ordem recebida, amarrou a criança pelos pés e deixou-a pendendo do ramo de uma árvore. O menino foi encontrado por um camponês, que o levou a seus patrões. O casal adotou a criança, que recebeu o nome de Édipo, ou Pés-Distendidos.

Muitos anos depois, quando Laio se dirigia para Delfos, acompanhado apenas de um servo, encontrou-se, numa estrada muito estreita, com um jovem que também dirigia um carro. Como este se recusasse a obedecer à ordem de afastar-se do caminho, o servo matou um de seus cavalos, e o estranho, furioso, matou Laio e o servo. O jovem era Édipo que, desse modo, se tornou o assassino involuntário do próprio pai.

Pouco depois desse fato, a cidade de Tebas viu-se afligida por um monstro, que assolava as estradas e era chamado de Esfinge. Tinha a parte inferior do corpo de leão e a parte superior de mulher e, agachada no alto de um rochedo, detinha todos os viajantes que passavam pelo caminho, propondo-lhes um enigma, com a condição de que passariam sãos e salvos aqueles que o decifrassem, mas seriam mortos aqueles que não conseguissem encontrar a solução. Ninguém conseguia decifrar o enigma, e todos haviam sido mortos. Édipo, sem se deixar intimidar pelas assustadoras narrativas, aceitou, ousadamente,o desafio.

- Qual é o animal que de manhã anda de quatro pés, à tarde com dois e à noite com três? – perguntou a Esfinge.

- É o homem, que engatinha na infância, anda ereto na juventude e com ajuda de um bastão na velhice – respondeu Édipo.

A Esfinge ficou tão humilhada ao ver resolvido o enigma, que se atirou do alto do rochedo e morreu.

A gratidão do povo pela sua libertação foi tão grande que fez de Édipo seu rei, dando-lhe a rainha Jocasta em casamento. Não conhecendo seus progenitores, Édipo já se tornara assassino do próprio pai; casando-se com a rainha, tornou-se marido da própria mãe. Esses horrores ficaram desconhecidos, até que Tebas foi assolada pela peste e, sendo consultado o oráculo, revelou-se o duplo crime de Édipo. Jocasta pôs fim própria vida e Édipo, tendo enlouquecido, furou os olhos e fugiu de Tebas, temido e abandonado por todos, exceto pelas filhas, que fielmente o seguiram, até que, depois de dolorosa peregrinação, ele se libertou de sua desgraçada vida.”

Compilado de “O Livro de ouro da mitologia – A idade da fábula – História de deuses e heróis” – Thomas Bulfinch – p.152-153

Albert Einstein

A Física nasceu na Grécia, e os “obstetras” foram os filósofos chamados por convenção de “pré-Socráticos”. Isso porque Sócrates é um marco na história da filosofia, existe um antes e um depois de Sócrates.

A Grécia antes do período clássico, era formada por vários povos vindos de várias partes do continente, e como na maioria das nações da época sua ciência estava intrinsecamente associada a crenças religiosas. As explicações mitológicas permeavam e minavam a ciência, que em conseqüência não se desenvolvia. Até que surgiram os primeiros pensadores que resolveram romper com os mitos, isso por volta do século VI A.E.C.

Embora ainda acreditassem nos deuses, passaram a observar que era possível explicar os fenômenos naturais sem recorrer a eles. Daí uma série de teorias, sobre a causa e origem das coisas, começaram a ser formuladas. Um achava que tudo vinha da água, outro no fogo ou de ambos, até que um deles disse que o elemento indivisível da matéria, e que, portanto funcionaria como os tijolos da natureza, era o átomo, o autor da proeza chamava-se Demócrito.

Epicuro e Lucrécio tornaram-se os grandes difusores da teoria de Demócrito, graças a esses homens temos hoje o que o que se chama de Física. Inclusive, os filósofos pré-Socráticos são também chamados de filósofos da physis, justamente por debruçarem-se sobre questões que envolviam a física do Universo.

Dos pré-Socráticos até Einstein mais de 2000 anos se passaram, e podemos dizer que na área da física a história pode ser dividida em antes e depois de dele, uma decorrência imediata de sua contribuição para a ciência.

Neste último domingo, Marcelo Gleiser, em sua coluna Micro/Macro, escreveu uma interessante, didática e elucidativa crônica sobre Einstein, revelando facetas do gênio que geralmente são desconhecidas da maioria. Leiam a seguir o texto integral da matéria de Gleiser.

O jovem Einstein

O físico de vinte e poucos anos vestia-se bem e era boa pinta

Talvez uma das fotos mais conhecidas do século 20 seja aquela de Albert Einstein (1879-1955) com a língua de fora. No seu aniversário de 72 anos, dia 14 de março de 1951, Einstein estava cansado dos jornalistas que não o deixavam em paz. Quando deparou-se com o exército de fotógrafos que o esperava, Einstein pôs a língua de fora, na esperança que os fotógrafos desistissem dele e fossem realmente embora.

Grande engano! A imagem tornou-se um ícone do gênio, excêntrico e brincalhão. Incontáveis filmes, desenhos animados e peças teatrais exploram o mito do cientista meio louco meio gênio, cabelos despenteados, sotaque carregado, roupas amarrotadas e sapatos desamarrados. Poucos sabem que esse Einstein tem muito pouco a ver com o outro Einstein, o jovem que criou teorias mirabolantes sobre o espaço, o tempo e a matéria, teorias que revolucionaram toda a visão que se tinha sobre o cosmo na época.

O jovem Einstein era um rapaz problemático, ao menos segundo os olhos de seus professores. Não que fosse um mau aluno: em 1896, graduou-se no então científico com as melhores notas da turma, mesmo que um ano mais novo. Seu problema maior era o autoritarismo do sistema educacional europeu. Os professores achavam-se literalmente intocáveis, incapazes de errar e muito menos de serem criticados por estudantes metidos.

Pois Einstein era justamente um desses estudantes que vivia questionando seus professores, tentando encontrar erros em seus argumentos, sem medo de se expor ou de criar controvérsia. Em 1898, quando cursava o Instituto Politécnico de Zurique, Weber, um dos maiores físicos da Europa e seu professor, afirmou: “Você é muito inteligente, mas jamais aceita a opinião dos outros”. Einstein estava irritado com Weber, que limitava-se a ensinar a física pré 1850. Matava aulas e usava as notas de seu amigo Marcel Grossmann. Weber acabou opondo-se à sua carreira e Einstein não conseguiu emprego como seu assistente e também ficou de fora de uma universidade.

Acabou encontrando um emprego no escritório de patentes em Berna, na Suíça, graças à influência do pai de Grossmann. Nessa altura, Einstein tinha um círculo de amigos que se reunia sempre nos cafés da cidade para discutir filosofia e física, a chamada Academia Olímpia.

Enquanto lia os textos dos grandes filósofos e físicos, Einstein escrevia também seus próprios artigos. Era clara a sua liberdade e coragem intelectual. Esse Einstein, de vinte e poucos anos, vestia-se bem, era boa pinta e engraçado. Em 1904, seu melhor amigo, Michele Besso, juntou-se a ele no escritório de patentes.

Einstein diria dele: “Não poderia ter encontrado pessoa melhor para discutir minhas idéias em toda a Europa”. Em 1905, Einstein publicou quatro artigos que mudaram a ciência. A teoria da relatividade especial foi apenas um deles. Qualquer dos outros trariam fama imortal ao seu autor. Tinha apenas 26 anos.

Na relatividade, Einstein vai contra 300 anos de física, demonstrando contra tudo e todos que o problema do éter, o meio que supostamente dava suporte à propagação da luz, não era um problema: o éter simplesmente não existia.

Anos de reflexão levaram a uma conclusão fantástica: “O tempo não pode ser absolutamente definido”. O jovem rebelde traz a noção de perspectiva à ciência, ressaltando o papel do observador nas medidas de tempo e de espaço.

Se a elegância foi-se com a idade, ficou ao menos a rebeldia, se não tanto nas idéias ao menos na língua.

Carnaval

Festa da Carne

Eis que se aproximam as festividades carnavalescas. Para muitos um período de alegria, para mim de consternação. Confesso minha antipatia para com essa festa inebriantemente funesta. E para os que gostam dela tenho a oferecer apenas o meu respeito, e isso já é mais do que suficiente, afinal de contas gosto é gosto, e “às vezes” gosto não se discute.

O carnaval é uma festa antiga. Alguns acreditam que suas raízes mais profundas encontram-se no Egito dos faraós, mais precisamente em rituais festivos em homenagem à deusa Ísis. Outros encontram correlatos nas bacanais, reuniões orgíacas em homenagem a Baco, o deus do vinho greco-romano. Outras três festividades romanas entram também na progênie do carnaval, a Carrum Navalis, as Februalias e Lupercalias.  Carrum Navalis era a entrada do corpo de guerra naval que abrilhantava as Dionisíacas, festas dedicas a Dionísio, que era o mesmo e já referido, Baco. Alguns estudiosos até vêem na locução Carrum Navalis a origem da palavra carnaval, embora seja possível talvez se trate apenas de uma coincidência lingüística.

As Februalias e Lupercalias, muito celebradas na época dos Césares, eram festas realizadas no último mês do calendário romano, o nosso fevereiro, inclusive a palavra fevereiro vem de Februss, que era o deus celebrado durante as Februalias. Februss era o deus etrusco da morte que encontrava seu equivalente no Plutão dos romanos e o Hades do gregos. As festas fundamentavam-se na idéia de purificação e renovação da vida. Sacerdotes vestidos com peles percorriam as ruas açoitando mulheres com chicotes feitos com tiras de couro de bode, isso livraria o povo dos maus espíritos e de maus agouros, e ao mesmo tempo concedia às açoitadas a benção da fertilidade.

Mais tarde estas festividades seriam “cristianizadas”. Mais uma vez, com o intuito de solapar o paganismo em terras católicas, a igreja tratou de modificar o ritual romano, dando-lhe nova roupagem com a comemoração do martírio de São Valentim em 14 de fevereiro, dia que antecedia o final da Lupercal. Porém, nada impedia que neste período as festas fossem realizadas com muita diversão e excessos, desde que ao início da Quaresma tudo isso fosse abdicado.

Nessa época de festejos o povo estava livre para comer muita carne, coisa que era vista como sinônimo de pecado, pois as classes mais abastadas, que consumiam muita carne, eram também as mais dadas à luxúria. A igreja, mestra em analogias descabidas, associava uma coisa a outra.

Sendo o “comer carne” sinônimo de pecado, então que o povo comesse dela antes da Quaresma, pois durante a mesma deveria dela se abster, daí o “carne levare” que significa “abstenção de carne”. Essa expressão sim, parece ser a mãe da palavra carnaval.

Festa das Máscaras

Cada povo europeu celebrava a pândega, entre a Festa de Reis e início da Quaresma, da melhor forma que lhe aprouvesse. Porém, as folias mais populares e mais difundidas foram as venezianas com seus bailes de máscara. Aqui no Brasil o costume arraigou-se graças a uma atriz chamada Clara Dalmastro que em 1946 realizou, no teatro São Januário do Rio de Janeiro, o primeiro baile de máscaras num ambiente de espetáculos.

O uso de máscaras também descende de tradições antigas, especialmente em rituais mágicos, sacerdotes mascarados figuravam melhor suas divindades. No teatro grego e romano eram usadas na representação dos personagens, especialmente quando criaturas mitológicas faziam parte da trama.

A função primordial da máscara, portanto é a de assumir uma nova identidade. Nos carnavais, ainda que seja parte da brincadeira, o mascarado esconde-se por trás da fantasia e revela seu eu reprimido. Funciona como uma fuga das convenções sociais, das imposições morais das quais muitos se sentem presos. A máscara permite extravasar e protege das repreensões moralistas imediatas. 

É neste ponto que surge o paradoxo da máscara. Com ela assume-se uma nova personalidade, ou na verdade revela-se a verdadeira? Se for assim então aquela que se supõe ser verdadeira personalidade, sem máscara, é na verdade a falsa e portando, mascarada de forma subjetiva.

Isso quer dizer que durante todo o ano, ou durante toda a nossa vida, usamos uma máscara, não feita de papel, plástico ou qualquer outro material sensível, mas uma máscara de formas e de aparências. Mascaramos-nos de polidez, de pudor, de alegria, de seriedade ou de ideologias diversas e escondemos a real natureza de nosso ser, os verdadeiros pensamentos e idéias, nossos gostos, aspirações e opiniões. Presos num sarcófago caiado de ouro, somos múmias contorcendo-se nos atavios de nossos próprios laços apodrecidos.

O arroubo de alegria carnavalesca é expressão desordenada do medo (mais um paradoxo). Mas medo do que? Justamente o medo de revelar-se. O medo de ser quem realmente se é. É como se o homem fosse uma moeda de “três faces”. Uma que se contrapõe a outra, e a terceira que ficaria no meio de forma equilibrada. Uma face representando o eu enclausurado, a contraparte é aquela que explode nos folguedos e a terceira, a equilibrada, é o eu assumido, inteligente, racional e sem máscara.

Festa da ignobilidade

Juvenal, poeta romano que viveu por volta dos dois primeiros séculos da era cristã, disse bem em sua obra Satirae “Duas tantum res anxius optat: panem et circenses” que quer dizer “O povo (romano) tem apenas dois desejos: pão e jogos circenses”. Juvenal foi um crítico bem humorado da sociedade romana, e gostava de revelar a insensatez do povo.  

Era política de Roma oferecer às massas empobrecidas, com o objetivo de evitar possíveis levantes e conspirações, pão e divertimento. Todos os dias havia apresentações nos estádios onde também era distribuído alimento gratuito. Embevecidos com a “boa vontade” de seus governantes o povo se sentia satisfeito e protegido, com sorriso estampado no rosto.

A isso se presta também o carnaval. Parafraseando um outro filósofo eu diria que “o carnaval é o ópio do povo”. O carnaval brasileiro é considerado o melhor do mundo, atrai turistas de toda a parte, o mundo vem pra cá, atrás do narcótico.

Os viciados se drogam a princípio para esquecer, mais tarde drogam-se porque se tornam dependentes, como era dependente a plebe romana pelo “circo”, o espetáculo que fazia esquecer os problemas. Afinal de contas, quem gosta de pensar em problemas? Ou de ficar remoendo as dificuldades? Melhor é se divertir e esquecer mesmo. Mas tem um detalhe, esquecer não resolve os problemas, eles continuam existindo. 

Essa é nossa situação. Temos o pão (ainda que nem todos) e temos o circo, para muitos é o bastante. E se o circo não é o carnaval, pode ser também o futebol, ou os famigerados programas de auditório aos sábados e domingos. Vale tudo, desde que a atenção seja desviada da realidade para o lúdico mundo da fantasia.

Infelizmente a folclórica festança vem aí. Muitos vão dançar, beber, se entregar a luxuriosa patuscada, e o país que deveria usar a máscara da tragédia ostentará o lívido e plástico sorriso da máscara da comédia.

Isaac Asimov

Estava pensando em escrever alguma coisa sobre Isaac Asimov, um dos mestres da ficção científica ao lado de George Orwell e Aldous Huxley, e lembrei-me de um texto sobre ele publicado na revista Superguru, escrito por Guilherme Carone.

A matéria saiu na época em que o filme Eu Robô arrecadava montantes de bilheteria nos cinemas.

Pedi autorização ao Guilherme para publicar aqui no Filosofando o texto na íntegra, a qual ele concedeu sem delongas.

Muito obrigado Guilherme, e segue o texto.

Eu, visionário

Profeta, autodidata, cientista, escritor: Isaac Asimov – um filósofo na vanguarda do mundo

Autor muito reverenciado atualmente, em boa parte por causa do longa “Eu, Robô”, cujo enredo baseia-se em sua obra-prima homônima, lançada em 1950, Isaac Asimov foi um dos mais prolíficos e singulares mestres da ficção científica, alcançando um status hoje só comparável a Arthur C. Clarke e Robert A. Heinlein.

De origem muito humilde, Asimov e sua família emigraram da pequena aldeia de Petrovichi, na Rússia, para os Estados Unidos em 1923, vindo a se estabelecer em Nova Iorque. Desde então, Asimov começou a impressionar por suas incríveis habilidades cerebrais. Antes mesmo de ingressar no primário, o garoto já dominava completamente o idioma inglês e, aos 11 anos de idade, começou sua produção literária, com seu primeiro conto de ficção científica de expressão publicado no ano de 1939, contando a conquista da Lua pelo homem com exatos 30 anos de antecedência.

Devorador voraz de clássicos como “A Ilíada” e obras de Shakespeare, graduou-se em Química pela Universidade de Columbia com 19 anos e com apenas 21, tornou-se mestre.

A partir desta época, o autor começou a consagrar-se como um dos grandes escritores de ficção dos EUA, produzindo cerca de 500 clássicos, entre eles, a trilogia “Fundação” (Foundation), “Caça aos robôs” (The Caves of Steel), “O Cair da Noite” (Nightfall), também o já mencionado “Eu, Robô” (I Robot) e “O Homem Bicentenário” (The Bicentennial Man), que recentemente foi encarnado nas telonas por Robbin Willians. As obras de Asimov sempre se debruçaram com sutileza e sagacidade sobre a questão da tecnologia e seu desenlace nas relações humanas, com enredos temperados com conflitos éticos e envolvendo temas subjetivos, tais como criação, consciência e liberdade. As histórias povoadas de robôs insurgentes e autômatos inteligentes são, sem dúvida, sua marca registrada, muito embora o escritor ainda tenha se embrenhado por campos como a exploração espacial e o contato do homem com espécies alienígenas.

Parte considerável de seu trabalho pode ser sintetizada nas suas “três leis da robótica” (complementadas, posteriormente, com uma quarta regra), que ganharam, no meio intelectual, ares filosóficos e científicos. O ponto central da obra “Eu, Robô” está no momento em que as máquinas, programadas com as premissas aqui comentadas (vide Leis da Robótica abaixo), adquirem a consciência de que o homem é o principal obstáculo à realização das leis, uma vez que ele é seu próprio algoz. Desta forma, cria-se um contra-senso lógico e uma decorrente rebelião.

As metáforas etílicas e melancólicas de Asimov foram as sementes para o conceito original de muitos representantes do primeiro escalão da ficção científica moderna, incluindo aí “2001” e “Matrix”. Mas a obra maior de Asimov é, sem dúvida, nos convidar a uma reflexão sobre a forma como lidamos com a vida e com o nosso destino, senhores dele que somos. É como se o mestre nos lembrasse, a cada palavra de seus muitos textos, o quão prisioneiros podemos nos tornar de nós mesmos e como é fácil e tentador, em nome de uma conveniência menor, vender a nossa alma e a nossa própria humanidade.

As Leis da Robótica

Primeira Lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal.

Segunda Lei: Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei.

Terceira Lei: Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e a Segunda Leis.

Lei Zero: (criada no romance “Os Robôs e o Império”) Um robô não pode causar mal à humanidade ou, por omissão, permitir que a humanidade sofra algum mal, nem permitir que ela própria o faça.

Sobre o Líbito

Esta manhã um amigo enviou-me uma crônica de Fábio Santos, diretor editorial do Destak.  Nela Fábio trata da questão da responsabilidade da escolha.

Todos os dias fazemos escolhas, escolhemos qual roupa usar para sair ao trabalho, qual restaurante comer, o que comer, com quem falar e o que falar, o cotidiano e a vida são repletos, ou senão dizer definidos, de situações que exigem uma escolha, e ao escolher sobre isso ou aquilo estamos fazendo uso de nossa “liberdade”.

Os exemplos que citei são de coisas costumeiras, corriqueiras, com as quais nos deparamos diariamente, mas eis que num momento ou noutro nos afigurarão questões mais complexas, que vão exigir o uso da escolha, questões cujo peso da responsabilidade será bem maior.

Leiam e reflitam sobre o texto do Fábio Santos, e desde já agradeço ao Denis por enviá-lo a minha caixa de e-mails.

As escolhas que cada um faz 

Quase um milhão de pessoas já assistiu ao filme Meu Nome não é Johnny, que narra a história de um rapaz de classe média que, entre 1989 e 1995, chegou a ser considerado o principal fornecedor de cocaína para a elite do Rio de Janeiro. Vale a pena ver para tomar contato mais próximo com a história de João Guilherme Estrella. Se preferir, há também o livro homônimo de Guilherme Fiuza, publicado pela Editora Record. 

Hoje, depois de cumprir pena de dois anos de prisão, aos 46 anos, João Guilherme está casado com uma advogada, pretende ter um filho e trabalha como produtor musical. 

O que faz um rapaz com uma família correta, razoavelmente estruturada, bem financeiramente e com muitas oportunidades, enveredar pelo mundo do crime? As razões podem ser várias. Mas, segundo o próprio João Guilherme, o que o levou tão longe foram suas próprias escolhas. Um desejo de esticar a adolescência, de “curtir a vida adoidado”, de se sentir poderoso e desejado pelas mulheres que o buscavam para ter cocaína. 

Das entrevistas dadas por João Guilherme, conclui-se que a culpa, se quisermos chamar assim, foi apenas e tão somente dele. Se virou viciado e traficante, foi uma conseqüência de suas próprias escolhas. 

Essa mensagem vale para tudo na vida. Vale, por exemplo, para o garoto pobre que, apesar das dificuldades, constrói uma vida honrada e supera os obstáculos. Vale também para o garoto rico, que, apesar das facilidades, não considera que o mundo está à sua disposição e vai à luta.

É claro que, como disse o filósofo Ortega y Gasset, “o homem é o homem e suas circunstâncias”. Ou seja, ninguém existe no vácuo. Todos somos influenciados pela realidade que nos cerca. 

Mas o próprio Ortega y Gasset sempre deixou evidente em seus escritos que as circunstâncias moldam o homem, mas não o definem. Muito de sua filosofia tinha como objetivo incentivar o indivíduo a encontrar os meios de construir uma vida singular. 

Quer dizer: é possível, apesar das circunstâncias, fazer e viver as próprias escolhas e conquistar uma vida distinta daquela que seria de esperar. 

Para o filósofo, ninguém está condenado a ser apenas parte da massa. Da mesma forma, não é porque vivemos num país violento e de enorme desigualdade, que estamos condenados a agir apenas segundo essas circunstâncias. Podemos nos libertar delas.  Fonte: Jornal Destak

Repudiam-se nos colóquios cotidianos afirmações do tipo “eu não tenho certeza” ou “eu não sei”, é muito mais gostoso de dizer “eu sei” ou “eu tenho certeza”. Isso porque para determinadas pessoas, assumir que não sabem, é reconhecer-se ignorante. E ninguém gosta de ser ignorante, ou de se mostrar ignorante.

Para Sócrates, porém, entender-se como um ignóbil era revelar-se sábio. O filósofo tornou-se um transtorno para os sábios de seu tempo. Andava a procura de alguém realmente sábio e quando encontrava alguém, que se dizia especialista em determinados assuntos, ele travava diálogo com o mesmo e por meio de perguntas e respostas, como em um inquérito, acabava por revelar o completo despreparo do interpelado. Diante daquilo que não entendemos a reação mais correta deveria ser a proposta pelo filósofo Pirro, segundo ele o sábio deve recusar-se a pronunciar-se e adotar uma postura contemplativa, esse silenciar-se recebe o nome de afasia.

Não devemos confundir aqui a afasia neurológica, aqui se trata da afasia em filosofia.

Se por um lado é mais saboroso revelar-se conhecedor de determinados assuntos, por outro é mais sábio pronunciar-se em silêncio, a afasia é a eloqüência silenciosa. E se após refletir sobre o assunto ou acontecimento, chegar-se a conclusão que o tal é totalmente desconhecido, a melhor resposta é “eu não sei”. 

Infelizmente hoje em dia, graças aos meios de comunicação de massa, todos “sabem”. Assistir a um documentário é o suficiente, segundo alguns, para fazê-los entendidos no assunto apresentado, ou matérias publicadas em revistas e jornais científicos são suficientes para se dominar um determinado saber.

A mídia, ao mesmo tempo em que é uma excelente ferramenta para propagar descobertas e conhecimentos científicos, tem se mostrado também uma excelente matriz de imbecilidade. Pois fornece explicações mastigadas e veta, na medida do possível, o espaço para o debate e confronto de idéias, que ajuda a separar o joio do trigo e promove uma visão mais clara e livre de preconceitos.

Tornemo-nos afásicos. Não incorramos no erro dos precipitados que aceitam toda sorte de novidades pinceladas com ciência que o mundo apresenta. Não basta que alguém diga “tal coisa foi provada cientificamente”, pois existe ciência e pseudociência.

Esta afasia proposta também pode ser entendida por “dúvida”. Porque será que temos esta tendência de acreditar em tudo? Bom, na verdade não é bem assim, a tendência está em acreditar nas fontes que consideramos autorizadas, o problema é que estas fontes nem sempre são merecedoras de crédito.

Quando crianças nossas fontes são nossos pais, nossas figuras de autoridade. Conforme vamos crescendo transferimos a “figura de autoridade” para outras pessoas ou instituições, que podem ser parentes, professores, escola e mais ainda, a sociedade como um todo. Transferimos também essa mesma autoridade aos meios de comunicação, principalmente a TV que hoje começa a perder lugar para a Internet.

Essa transferência gradual acontece naturalmente e é explicada por Piaget em sua tese construtivista. Embora seja um processo natural é ao mesmo tempo perigoso caso o indivíduo no decorrer do processo não aprenda a questionar e avaliar as novas figuras, e até mesmo romper com elas, o rompimento é o verdadeira conquista da autonomia.

Assim como é importante que se ensine a acreditar é importante também duvidar, essa dúvida é parte importantíssima para o desenvolvimento da consciência critica, o tipo de consciência que vai gerar esse desvencilhar das figuras de autoridade. 

É preciso entender, porém que essa dúvida proposta aqui não é uma recusa, mas sim a exigência de provas adquiridas por métodos de análise e experimentação empírica.

O afásico duvida primeiro do que lhe é apresentado, mas não descarta as possibilidades do tal ser verdadeiro, antes silenciosamente medita, analisa, inquire, pesquisa, confronta conceitos e por fim chega a uma conclusão, que pode não ser a certa, mas que será com certeza uma conclusão muito mais madura e bem fundamentada.

A ciência como conhecemos hoje nasceu com a Filosofia. Os primeiros filósofos são chamados de filósofos da phisis devido ao seu interesse em explicar os fenômenos físicos por meio de análises sensoriais e empíricas. Para tanto, toda e qualquer explicação baseada em mitologia deveria ser descartada.

Daí em diante os homens das ciências passaram a percorrer um caminho que ia na contramão das crenças fundamentalistas e dogmáticas, atingindo o ápice do drama durante o negro período da Idade Média. Por essa época todo conhecimento era administrado pela Igreja, e tudo aquilo que contradizia suas colocações era considerado herético e passível de condenação, a pena poderia ser a morte do herege.

Devido a isso a Idade Média foi a grande produtora de mitos e lendas, e as explicações mais estapafúrdicas para fenômenos naturais proliferava Europa adentro e a fora, atingindo os continentes vizinhos, de forma que muitas das crendices dessa época se perpetuaram na forma de uma tradição, a tradição das superstições.

Ecos destas superstições acabaram por ganhar respaldo científico nos dias atuais graças a muitos movimentos, por parte até mesmo de eruditos, que procuraram mesclar a crendeirice com conceitos científicos isolados.

Um caso muito curioso é o do criador do grande detetive Sherlock Holmes, personagem famoso por seu ceticismo e uso da lógica. Sir Arthur Conan Doyle criou seu personagem por volta da década de 1880, e o grande paradoxo aqui é que Doyle mesmo estava longe de ser tão cuidadoso e sistemático em questões que envolviam crença e ciência como o era Sherlock.

Em “O cão dos Baskervilles” vemos como a avidez cética de Sherlock o ajuda a solucionar o caso que de outra maneira jamais seria solucionado, pois todos acreditavam ser o cão dos Baskervilles uma entidade sobrenatural capaz de torpes assassinatos. Quem dera Doyle tivesse a mesma avidez de seu personagem, pois em 1921 ele publicaria um livro intitulado The Coming of the Fairies (“A Chegada das Fadas”) onde ele sustentava a existência de tais entidades da natureza, tendo como fonte de argumento as fotos tiradas por duas meninas e meados de 1917, nas fotos  Frances Griffiths e Elsie Wright, as meninas em questão, aparecem num jardim permeadas por fadas e duendes.

Durante muitos anos o livro de Doyle sobre as fadas foi tido como obra máxima na comprovação da existência desses seres fantásticos. Infelizmente Doyle, que morreu em 1930, não viveu o suficiente para testemunhar as declarações de Frances e Elsie em 1982. Numa entrevista elas confessaram ter recortado as figuras das fadas e duendes em papelão e depois pendurado em galhos e folhas, usando apenas alfinetes, que inclusive, eram visíveis nas fotos.

E mais curioso ainda nesse caso é que foi preciso a confissão de Frances e Elsie para que muitos concluíssem serem falsas as fotos, pois na década de 1970 foram encontradas as ilustrações de Claude Shepperson, para um livro de fadas de 1914, que coincidiam com as usadas pela menina.

É possível que hoje ainda alguém acredite, mesmo tendo sido provado o contrário, que as fotos das fadas sejam reais, é um caso onde a farsa ganha mais força que o farsante, e ainda que o farsante confesse suas peripécias, todos continuarão a dar crédito ao engodo.

Paranéia paranóide

Depois da Segunda Grande Guerra duas potências começaram a concorrer para fazer valer seus sistemas de governo. De um lado os Estados Unidos, capitalista e do outro a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, comunista.

Iniciou-se então o que ficou conhecido como Guerra Fria, e com ela o medo de uma possível terceira guerra. Como as duas potências eram donas de um poderoso arsenal bélico e nuclear, um terceiro conflito poderia significar o fim do mundo, era o Apocalipse, o Armagedom ou talvez, quem sabe, o Ragnarok.

Mas a coisa não ficava só nisso, havia um outro tipo de medo para cada um dos lados nessa briga. Os ocidentais, em especial os norte americanos, temiam que o comunismo dominasse o mundo, para tanto esses comunistas poderiam se valer dos métodos mais insólitos, e para prevenir as futuras gerações do perigo que representavam os comunas alguns até diziam a seus filhos que “comunistas comiam criancinhas”.

Do outro lado não era diferente, os povos soviéticos eram doutrinados a temerem americanos como se fossem demônios capitalistas, e tinham lá também seu temor pelo possível antropofagismo ocidental.

Esse medo irracional, porém pincelado de lucidez, é o que se chama de “paranóia”, o termo que tem origem grega significa “turvamento da razão”. O indivíduo paranóico interpreta a realidade de uma forma desarranjada, todos os eventos conspiram contra ele, nas formas mais mirabolantes possíveis.

A guerra fria acabou, os sovietes comunistas fracassaram e não comeram ninguém, então teve fim a paranóia. Bom, teve fim essa paranóia, abrindo assim espaço para outras, cada uma pior que a outra. 

Uma delas é a de que os meios de comunicação em massa tramam contra a humanidade utilizando-se de mensagens subliminares. Que financia a trama? Ai pode variar, as vezes são as “elites”, ou a “América Imperialista” e seus “McDonalds” espalhados pelo mundo. Também tem aqueles que dizem que é o próprio “príncipe das trevas” com seus asseclas, ou simplesmente são “eles”.

Os asseclas são vários, pode ser um ídolo da música (não importa o estilo) ou um simples boneco de plástico. Emílio Calil, em seu blog sobre o cotidiano, escreveu uma crônica sobre o assunto. De forma clara e sucinta tratou da questão com maestria. Resolvi publicar o texto de meu amigo aqui, com o intuito de fornecer esclarecimento ao leitor que sonhe com tais “teorias conspiratórias”.

A seguir o texto na íntegra.

Festival de besteiras

Ano passado escrevi um texto desmentindo uma mensagem que circulou por um tempo nos e-mails de muita gente, na qual se avisava que o 13º salário seria extinto. Pura bobagem que não tinha utilidade nenhuma a não ser se beneficiar de leitores desavisados e fazer-lhes a cabeça para se tornarem adeptos dos terroristas partidos de esquerda. 

Agora, uma idiotice semelhante chamou minha atenção na última semana, forçando-me a pesquisar melhor um assunto que, apesar de ridículo, merece uma explicação para que os ingênuos não saiam por aí acreditando em engodos infantis sem nem mesmo procurar saber se a informação que lhes chega é verídica. 

Para vocês entenderem: Conversava com minha noiva semana passada e ela me perguntou se eu conhecia a história da Hello Kitty. “Que história?”, perguntei. “A história de uma mulher que tinha um filho com câncer na boca e vendeu a alma para curá-lo e, em troca, criou a Hello Kitty como uma marca para espalhar pelo mundo a imagem do mal”. É provável que vocês, leitores, já tenham ouvido falar nisso, mas para mim a coisa era novidade. Tudo começou porque minha noiva colocou um papel de parede da Hello Kitty no micro do trabalho, e seus colegas a advertiram sobre a “verdadeira” história por trás da tal gata. 

Comecei, então, uma busca sobre o assunto e encontrei a seguinte explicação, perdida em um site: 

“Havia uma menina de cerca de 14 anos q estava em fase terminal de câncer de boca. Os médicos já haviam tirado todas as esperanças da família em relação à cura da garotinha. 

A mãe da menina, desesperada, tomou uma decisão insana. Fez um pacto com o demônio: consagrou a menina ao demônio para que ele a curasse e, como promessa, criaria uma marca que afetaria todo o mundo (no caso, a Hello Kitty). 

Posteriormente o demônio curou a garotinha, e a mãe cumpriu o que havia prometido: criou a Hello Kitty. 

A palavra Hello, em inglês, quer dizer “olá”, e a palavra Kitty, de origem chinesa, quer dizer “demônio”. Logo, Hello Kitty quer dizer: “Olá demônio”. 

Vocês podem perceber que a Hello Kitty não tem boca, devido ao caso da garotinha ter o câncer de boca. 

A Hello Kitty é um símbolo da Nova Era. A Nova Era é uma seita que vai contra todos os princípios de Deus. Ela busca criar símbolos “bonitinhos” para agradar a todos.” 

Esse texto é uma das coisas mais absurdas e desconexas que já li. Um verdadeiro festival de besteiras cujo único propósito me parece ser desacreditar a Sanrio, empresa detentora da marca da Hello Kitty. Em primeiro lugar, não existe referência a essa história em lugar algum a não ser sites brasileiros. Procurei em sites americanos, franceses, espanhóis e italianos e nada. Para uma história que se pretende verídica, o mínimo que se espera é que tenha repercussão mundial. Ou será que nós, brasileiros, fomos os únicos a ter acesso a tal revelação? 

Nutro esperanças de que nenhum brasileiro se aventure a divulgar essa besteira em outros países e nos faça passar vergonha, pois, já disse aqui antes que nós não monopolizamos a estupidez, mas nos esforçamos para conquistar esse título. 

Voltando à história da Hello Kitty, diverte o fato de misturarem dois idiomas diferentes (inglês e chinês) para explicarem a origem do nome da gata. A tradução de “hello” está certa, mas o “kitty” é de doer – especialmente porque a empresa Sanrio é japonesa. Ainda assim, existem duas palavras que significam demônio em chinês: “wu gui” e “wu mo”. A primeira é composta pelos ideogramas que significam “mal” + “diabo”. A segunda é composta por “mal” + “magia”. Em mandarim são “e-gui” e “e-mo”. A palavra “kitty” não significa demônio em nenhum idioma do planeta.

O fato da Hello Kitty não ter boca é outra palhaçada. Quem conhece desenhos japoneses sabe que muitas vezes os artistas suprimem a boca dos personagens para destacar a expressão nos olhos – a boca fica subentendia. É coisa comum por lá. Desde a primeira vez que vi o desenho da tal gata, jamais pensei que ela não tinha boca, mas sim que estava de boca fechada. A imagem ao lado mostra que, quando necessário, a gata usa sua boca. 

O último parágrafo, que faz referência à “nova era”, parece estar ali gratuitamente. Não é auto-explicativo e nem possui referência que justifique tal afirmação. Triste é ver menções a Deus em besteiras assim, apenas para tentar dar credibilidade às insanidades.

Em tempo: A Hello Kitty é o bem sucedido resultado do trabalho da designer Ikuko Shimizu para a empresa Sanrio, sediada em Tóquio, Japão. Os primeiros itens foram lançados no mercado em 01 de novembro de 1974. Um ano depois, Ikuko Shimizu deixou a empresa e foi substituída por Setsuko Yonekuboe. Desde 1980 a responsabilidade pelo design da personagem é de Yuko Yamaguchi. 

Fica claro que essa mensagem absurda é uma forma de protesto contra o sucesso da marca. Não é novidade, especialmente no Brasil. Estamos tão acostumados à corrupção e mediocridade que, quando um conhecido é promovido na empresa ou alcança um sucesso financeiro, perguntamos quem ele roubou para chegar aonde chegou. Mérito próprio, esforço, dedicação, reconhecimento pelo trabalho e até uma bênção estão fora de questão. 

O mesmo vale para outras marcas famosas. O fato de multinacionais como Coca-Cola e Microsoft serem detentoras de enorme sucesso econômico só pode ser porque seus líderes fizeram algum pacto maligno para serem bem sucedidos. Já que nós não temos capacidade para nos igualar a eles, atiremos pedras. 

Não digo que não existam pessoas que façam pactos ou vendam a alma visando sucesso pessoal – afinal, o que não falta no mundo é a tendência para o mal. Mas estes são pobres coitados que chafurdam em sua própria desgraça. Entretanto, cabe o mínimo de bom senso a quem se pretende culto e civilizado para discernir uma história verdadeira de um boato ridículo e sem fundamento. 

Portanto, se você está com medo de usar uma mochila da Hello Kitty ou vira o rosto quando vê a imagem da gata estampada em algum lugar, pode respirar aliviado. Ela é apenas fruto de uma idéia de marketing. Seria bom se nós, antes de amaldiçoarmos as trevas, lembrássemos primeiro de agradecer pela luz.     

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